A música de TONOLEC integra a trilha sonora

do documentário CULTIVANDO FLORES DO FUTURO

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 O site oficial :

http://www.tonolec.com.ar/

VIDEOS :

Techo de Paja

Plegaria del arbol negro

Indio Toba

So Cayolec – Mi Caballito

Album :

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TONOLEC

Charo : Tonolec é uma dupla de músicos integrada por Diego Pérez e Charo Bogarín. Ambos somos compositores e estamos trabalhando na fusão da música eletrônica como a música nativa.

Este trabalho começa com uma pesquisa de campo nas comunidades Toba do Chaco argentino. Assim encontramos o coral Toba Chelaalapi (“bando de sabiás”) que é um coral de 13 homens e mulheres, adultos que desde 1962 tomam a missão de transmitir os cantos antigos e ancestrais de geração a geração. Eles nos abriram os seus braços, bateram palmas para nós, foram supervisionando o nosso trabalho como músicos e como seres humanos enquanto trabalhamos com o seu material musical, com a sua língua e, portanto, com a sua tradição.
Tonolec é uma palavra Qom, que significa “kaburé”, uma ave do bosque do Chaco que canta durante as noites, cujo canto tem poder hipnotizador.
Diz a lenda que devido ao seu dom ter sido mal usado, por ter tido vaidade em excesso, os espíritos do bosque o castigaram transformando as suas plumagens em objeto de fetiche, em objetos de sorte para o amor. Assim o condenaram a ser uma ave perseguida pelos demais seres. Fica feio e depenado, condenado a cantar durante as noites, escondido, e transmitindo o seu canto como um eterno lamento. Essa é a lenda do Tonolec, da qual soubemos após termos adotado esse nome.
Foram os próprios integrantes do coral Toba Chelaalapi os que nos contaram a história, como uma espécie de moral e de advertência que nos faziam.
Nós estamos trabalhando com uma língua ancestral, com os seus sons, reciclando de certa forma aquilo que a cultura Toba representa. Mas eles nos dizem: Nome que vocês escolheram é muito bom, porque e um nome que também vai exigir muito cuidado de vocês. A moral diz: não abuse dos seus dons, porque isso pode lhe levar ao mau caminho. Foi o que aconteceu com o tonolec.
Foi uma forma de nos dizer : Cuidado com o que fazem, porque nós estamos entregando um tesouro para vocês, a língua, as canções, o legado da tradição oral de boca em boca. Eles abriram esse cofre e nos deram esse diamante, então eles nos dizem: por favor, tomem cuidado com isso, vocês têm esse dom de transmitir isso para as pessoas, então, usem esse dom de uma forma boa e não em benefício próprio. Penso que esse nome tem uma carga muito pesada.

 

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REENCONTRO

Diego : Nós moramos muito tempo no Chaco ignorando este mundo que estava à nossa volta e que podia nos ensinar muitas coisas.

Depois, para seguir a nossa profissão de músicos, tivemos que ir para Buenos Aires, onde, de certa forma, reina no inconsciente a ideia de que o ser humano pode prescindir da natureza, quem tem que dar continuidade ao seu projeto e à sua estratégia.
No ano 2000, tivemos a sorte de sermos vencedores em um concurso da MTV e viajar à Europa.
Na Europa, nós apresentamos a música que vínhamos fazendo: uma espécie de pop eletrônico.
E então percebemos que nós não somos europeus, mas sim latino-americanos, que as nossas raízes estão aqui; numa mistura de sangue que resulta naquilo que somos, que necessitávamos de uma nova identidade e de nos reconhecer novamente.
Sentimos que tínhamos que buscar mais profundamente as raízes argentinas e as nossas próprias.
Voltamos da nossa viagem no auge da crise argentina de 2001.
Em meio à crise, nós começamos uma procura que tinha a ver com os lugares onde nós crescemos, Charo em Formosa e eu em Resistência, no Chaco.
Foi assim como entramos em contato com as comunidades Toba e com o coral Chelaalapi, de Resistência.
Ficamos verdadeiramente ofuscados pela sua música que refletia tão bem a paisagem natural do chaco onde crescemos. Deixamos nos influenciar por essa música e pela cultura Toba que apresenta um monte de riquezas e conhecimentos que nós estamos frequentando neste momento: a vida em comunidade, o respeito pela natureza e por todos os seres vivos que convivem conosco. Foi uma lição muito grande para nós, pessoalmente e como músicos. A partir desse momento o nosso trabalho foi tentar integrar estes dois mundos: o mundo natural e o mundo da tecnologia, o mundo orgânico e o mundo digital, e que nós estamos nestes dois mundos que, por sua vez, têm linguagens diferentes e possam conviver em harmonia na nossa música. De certa forma, esse é o som do Tonolec : a integração.
Charo : Fomos mudando. Vínhamos de um lugar que não era saudável, uma vez que não nos víamos refletidos naquilo que fazíamos. Às vezes é necessário voltar às origens, olhar para atrás para encontrar a si mesmo no seu próprio eixo.
Era o que nós vivíamos como artistas. Estávamos fora do nosso eixo. Não nos refletíamos nas coisas que eram europeias.
Foi um grande reencontro, não apenas o fato de voltarmos como artistas ao nosso eixo, mas no meu caso particular, foi voltar ao meu centro como ser humano, além de encontrar a identidade musical, encontrei a minha identidade como pessoa e depois poder transmitir isso na arte que nós fazemos, recuperando o orgulho de ser o que somos, de ter sangue nativo, de cantar nas nossas línguas, que nos foram negadas por anos e anos.
Olhando para atrás e vendo o caminho percorrido, podemos ver que além das formas musicais, estas pessoas nos ensinaram uma forma de vida, a ver o mundo a partir da cosmo visão. Acreditamos que ali está a semente boa que temos que recuperar e plantar novamente.

COMPARTILHAR

Charo : Um dos momentos mais significativos foi o início disto tudo, o primeiro dia em que entramos em contato com o coral no local onde eles de reúnem para os ensaios.
Vínhamos de Buenos Aires com o minigravador, microfones, câmara de fotos, filmadora… como para coletar informação de forma brutal, e nos encontramos nesse agradável clima de mulheres e homens adultos da etnia Qom sentados para ensaiar. Cumprimentamos a todos, nos apresentamos como dois músicos jovens interessados na sua cultura, na sua música e eles apenas nos olha, acenam com a cabeça e nos convidam para sentar do sue lado.
A vó Zunilda Méndez, a mais velha, nos entrega pezuñitas (cascos pequenos) de cabra (instrumento muito característico dos povos nativos do norte) e começam a cantar. Então, seguindo o ritmo, começamos a cantar com eles e entramos nesse mundo mágico, maravilhoso e cheio de uma energia até então desconhecida por nós; esse leque musical que de repente nos era apresentado com os cantos das mulheres e dos homens, com o toque do violino toba (nvique)…
E assim passamos uma hora, duas horas, não sei durante quanto tempo participamos dessa roda de canto e dança, cheios de uma energia que nesse momento não compreendíamos. Simplesmente sentíamos um bem-estar. Diego e eu nos olhamos e, realmente, não encontrávamos palavras para descrever o que sentíamos participando desses cantos ancestrais e da forma de ser dessas pessoas de tão poucas palavras, com olhar profundo, com outro tipo de percepção e de leitura do mundo.
Penso que naquele momento eles também fizeram uma radigrafia nossa com o seu olhar, fizeram uma leitura que ficou guardada e que apenas a expressaram anos mais tarde.
Nunca nos atrevemos a retirar absolutamente nada do que tínhamos na mochila. Nesse momento, ter tirado um microfone seria algo totalmente inapropriado. São pessoas de tradição oral, de tempos reais, não dos tempos que correm. Foi isso o que nós fomos compartilhar com eles : compartilhar e aproveitar esse momento, aproveitar tudo o que eles podiam nos entregar como artistas e como seres humanos. Os objetos ficaram ali, guardados.
Foi o primeiro estalido que tivemos, de que as coisas devem ser aprendidas no seu devido tempo, que não podemos ser apressados, ir e gravar em duas horas um material que eles demoraram anos e anos em coletar e aprender. Respeitar os tempos da natureza é a premissa com que vivem. A gente não pode apressar a aprendizagem.
Eles nos ensinaram essa forma de trabalhar a música nativa, em tempos reais, respeitando o que é a aprendizagem por meio da tradição oral: nada de fazer notas, nada de escrever, nada de gravar: a gente vai e canta com eles.
Assim aprende os seus cantos, porque os compartilha com eles em tempo real. Tanto é assim, que nós levamos 4 anos em realizar essa fusão de música eletrônica como forma com a música toba Qom como conteúdo.

 

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PAISAGENS SONORAS

Diego : Quando começamos a entrar em tudo isto, percebemos até que ponto os elementos da música toba estão extraídos da paisagem do bosque chaquenho : as vagens das árvores, os cascos dos animais, os troncos que se transformam em tambores, os cantos das mulheres que têm a ver com os cantos dos pássaros, o canto do violino toba, nvique, que, na verdade, significa “arranhão do tigre”, que este faz na árvore para afiar as suas unhas.
São aprendizagens que as pessoas recebem da natureza e que estão dirigidas à natureza: cantos que têm a ver com os ciclos… E o ciclo também tem a ver com o elemento eletrônico, com o “loop”, a repetição. Nós fomos conhecendo intuitivamente esses elementos para depois analisá-los e assimilá-los como músicos.
Charo : Cada linguagem tem uma sonoridade que lhe é característica. A língua toba tem uma sonoridade que é gutural, da garganta. Tem sons que às vezes são interrompidos pelo golpe que ocorre na glote, tem muitas consoantes.
Na hora de cantar, a linguagem toba toma uma dimensão que realmente surpreende. Nós vínhamos com o modelo da linguagem ocidental, com a sua forma de pronunciar as palavras e, de repente, encontramos uma forma totalmente nova.
Por exemplo o canto agudo das mulheres tobas, no qual eu me baseio: A força que a linguagem adota quando estamos cantando.
Por meio dessa linguagem, de certa forma a gente consegue entrar em contato com a pessoa que está ouvindo e, ao mesmo tempo, entro em contato com certas partes às quais antes eu não tinha acesso, com certas profundezas que são indescritíveis, com uma força que a gente não sabe de onde sai. Eu me sinto transportada realmente para outro mundo que remete às paisagens oníricas de sonho, onde a gente pode fazer coisas mágicas, podemos voar, mover montanhas ou atravessá-las. Penso que essa linguagem ancestral e primária de certa forma mágica e maravilhosa tem este poder e esta força. E penso que é isso o que as pessoas finalmente percebem quando ouvem os cantos.
Há uma conexão que vai além do entendimento e da razão. Existe uma conexão com partes suas que são desconhecidas, ou uma conexão com a própria natureza que evoca essa linguagem e para onde se é levado pela sonoridade da linguagem toba. Isso finalmente se traduz na força que tem essa volta às línguas originais, que estão aqui há milhares de anos.
Diego : O retorno das pessoas é esse: viajam, é uma grande viagem a outras terras, para lendas, mitos, questões que têm a ver com uma forte ligação com a terra e com a natureza, com uma grande energia, com uma ligação com a terra que provavelmente não a fazemos no nosso dia a dia.
Muitas vezes as nossas apresentações têm esse retorno, as pessoas vêm e dizem: Agora me sinto mais leve, descarreguei na terra coisas das quais não me livrava e foi realmente uma solenidade, o qual, para nós, é alucinante.
O que nós sentimos quando entramos em contato com as comunidades foi que isso tinha que ser relatado às demais pessoas que não o conheciam.
É como acontece quando uma criança descobre algo e quer contar para os amigos porque sabe que é algo importante. Nós sentimos que de certa forma transmitimos esse conhecimento e que funcionamos como uma ponte entre as comunidades e o resto da sociedade.

O NOYETAPEC

Diego : O Noyetapec é muito significativo para nós. É um canto ancestral que o Coral nos transmitiu. Noyetapec significa “amanhece”. Foi o primeiro canto que conhecemos. Nós chegamos à comunidade porque casualmente encontramos essa canção em um disco e ficamos realmente hipnotizados pela melodia, sem saber exatamente o que significava a letra.
De certa forma, foi a ponte que nos levou até eles. A partir daí começou este trabalho de 4 ou 5 anos que nos levou a gravar o primeiro disco. A letra desta canção consiste em 3 palavras que narram toda uma história. Contam que o homem acorda pela manhã, sai para caçar e até não ter uma presa, não volta para casa. E depois você analisa a letra que na verdade diz :
“Noyetapec” (amanhece) “to troo-oooo” (canta o galo) “na sielabá” (o homem está chegando). Para eles essas 3 palavras relatam toda essa história.
E assim percebemos aquilo que falávamos mais cedo, a questão simbólica, de como 3 palavras podem expressar tanto simbolicamente. A partir dessa repetição, eles geram um verdadeiro estado, que é o estado que nós sentimos na primeira vez que ouvimos a sua música, o estado que tentamos transmitir também nos nossos concertos.

FORÇA DA TERRA

Charo : “La canción de cuna” (A canção de ninar) em minha opinião foi a canção mais bonita que ouvi até hoje, pelos registros vocais e pela carga emocional que tem.
É uma canção que as avós mais anciãs da comunidade toba transmitem de geração para geração. Não sei quem a inventou, data de muito tempo atrás. Foi a vó Zuñilda Méndez que a ensinou para mim.
Aprendê-la foi uma das coisas mais lindas que podiam me acontecer. Em primeiro lugar pelos registros vocais que tem. O lugar onde a voz é colocada para começar a cantar é como se você estivesse dentro de uma montanha e você direciona a voz exatamente para o centro e o cume dessa montanha mais alta que você possa imaginar.
Essa é a sonoridade, essa é a força da terra que está ali, esse é o compromisso que eles têm na hora de cantar. Você não está no planalto quando os ouve. Com eles, você está no cume mais alto da montanha, no profundo do profundo de um túnel ou deslizando pelas águas de um rio. A letra diz: “dorme, dorme, filhinho, dorme, que o teu pai foi trabalhar, foi buscar mariscos, dorme, dorme, filhinho dorme, que a tua mãe tem que tecer a rede para que o teu pai possa pescar os peixes do rio”.
É isso o que a canção diz, e também diz “quoilala yalcalec”, “quoilala” é o mel de abelha e “yalcalec” é uma abelha bem pequena. É uma canção muito suave, e talvez uma das mais representativas do que é o legado oral desta comunidade.

ADA NAWE EPAQ

Charo : A “Plegaria del Árbol Negro” (Cantiga da Árvore Negra) se remete à mitologia toba Qom, a uma história de competência feiticeira. A lenda da “Ada Nawe Epaq” (Árvore Negra) diz que em todos os anos novos dos povos originários, os seres auxiliares, os espíritos, recorrem aos sonhos para chamar os feiticeiros e levá-los até o pântano, em meio ao qual está a Ada Nawe Epaq, o tronco negro. Para subir na Árvore eles têm que livrar-se dos seres aquáticos do pântano, que são seres perigosos e que põem em risco as suas vidas. A Ada Nawe Epaq tem diferentes níveis, quanto mais alto o feiticeiro conseguir subir, maior será o poder de cura que terá.
Esses poderes vão ser entregues pelos elementos da natureza, poderes para curar por meio da água, do vento, do sopro. É disso que fala a lenda Ada Nawe Epaq, a lenda da Árvore Negra.

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O RITUAL

Charo : Outra das canções é o Rito (Ritual), que tem muito a ver com a forma em que os nativos veem o mundo, que uma forma muito poética, com pouca verborreia. A canção diz: “vamos lavar os rostos para não dormir”, falando do elemento água como algo que acorda, que cura: “vamos lavar o rosto para não dormir, o vento ainda sopra, chora, chora, cura, cura, sempre cura…”
É uma ação cotidiana que todos temos, falando de um ser que levanta e que vai ao banhado ou ao lago cristalino e que lava o rosto; todos fazemos isso, todos levantamos na nossa casa, no nosso apartamento, no lugar onde estivermos, levantamos e a primeira coisa que fazemos e lavar o rosto.
Não percebemos que nós, por mais ocidentalizados que estejamos, temos ações que são cotidianas e que são rituais, que os fazemos dia após dia para curar, para seguir indo em frente, para acordar, para começar um novo dia, o qual não é pouco.
“El rito” (O ritual) fala disso, da água como elemento de cura, curador e que acorda.

PEGADAS

Charo : Nós somos um pouco a história daquilo que vivemos, no meu caso em particular tive que passar por processos muito difíceis.
Nasci em Clorinda, Formosa (fronteira entre a Argentina e o Paraguai). O meu pai era militante do justicialismo, na questão agrária, sem estar armado, lutando a partir das suas ideias. Foi um dos desaparecidos.
Éramos 3 mulheres, a minha mãe, a minha irmã e eu, por decisão da minha mãe fomos morar na cidade de Resistência, para deixar um pouco essa terra que tanta dor nos causou.
Penso que essas crenças, essas ausências, esses grandes golpes na minha parte humana tiveram depois muito a ver com na minha maneira de expressar-me, na minha maneira de cantar. Eu também sou mãe, tenho uma filha cujo pai faleceu quando ela tinha um ano e meio. Então é um caminho de muita ausência, a minha paisagem também é muito árida, mas existe muita força, e, principalmente, existe uma mensagem que, em minha opinião, é muito avançada, e que fala do poder da mãe terra, o poder das mulheres, o poder da gente como seres humanos para ir enfrente e enfrentar as situações.
Essa é a força que eu encontro depois, quando subo ao palco para cantar e levantar a minha voz, porque levanto a voz a partir da dor, a partir de um lugar profundo e de um lugar de aprendizagem; não a partir de um lugar de rancor, não a partir de um lugar de ódio; mas de um lugar de plena confiança em que, a pesar das tremendas pancadas, às vezes quase fatais que a gente pode receber na vida marcada pelo fogo, a gente pode ir enfrente, construir para o bem, e levar uma mensagem de esperança e de força para os demais.

Octubre 2010 – Buenos Aires

 

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